Imaginemos o seguinte: dentro de anos, o governo em funções irá começar a repor subsídios na função pública (2015? 2018?). Ao mesmo tempo, acaba a suspensão das reformas antecipadas. Nessa altura, aqueles que não conseguiram pedir a aposentação por estes dias [100 mil? 150 mil?] já têm 65 anos e avançam todos para a reforma. A estes juntam-se os que já poderão pedir a reforma antecipada – num ano, com tanto novo pensionista e a reposição de centenas de milhares de subsídios, quanto irá crescer a despesa do Estado?
A este cenário juntam-se os caminhos possíveis para a crise da UE, que acalmou ou se agravou. No primeiro caso, o cenário segue assim: o BCE vai querer retirar liquidez à economia subindo juros, o que aumenta o preço do crédito, especialmente na habitação; além disso, com a retoma do consumo, o petróleo dispara, afectando a economia toda. Em Portugal, que nestes anos não terá um crescimento assinalável, a criação de emprego será baixa e o desemprego continuará alto, o que implica que o Estado, atolado em novas despesas, não consiga baixar gastos com prestações sociais, precisando de continuar a alimentar-se com um nível assustador de receitas fiscais, atrasando o relançamento da economia, já complicado por causa do petróleo e da Euribor.
Na segunda hipótese, o cenário é pior: o agravamento da crise ocorre na altura em que terminariam medidas temporárias – subsídios, reformas… E aqui a capacidade do país de reagir a uma hecatombe será mais baixa que a actual – se por um lado o Estado pode chutar os subsídios para 2045, nas reformas isso é impossível. Este é o problema das decisões de curto prazo que visam contornar decisões difíceis [cortar 13.o mês em vez de rendas excessivas; congelar reformas para compensar absorção de fundos de pensões]. Saem sempre mais caras que os ganhos que trazem. A absorção de pensionistas na última década é o exemplo: não se tivessem ido buscar tantos fundos de pensões para baixar o défice e hoje haveria margem para facilitar reformas, compensando a alta do desemprego.
O problema é que isto só rebenta daqui a uns anos e quando isso acontecer já outro governo estará em funções, que passará o tempo a culpar o governo anterior. Já a factura continuará a cair nos mesmos.
in: Jornal i, 17 Maio 2012