Angolanos e chineses já detêm 8% das maiores empresas na bolsa nacional

Da banca, às empresas de telecomunicações, passando pela distribuição grossista e retalhista de energia e de combustíveis em Portugal, assim como pelos grupos de comunicação social, os últimos meses ficam marcados pela explosão da rede de influências de investidores estatais de Angola e China em Portugal. Só esta semana, a empresária Isabel dos Santos, filha de José Eduardo dos Santos, presidente angolano desde Setembro de 1979, assegurou mais duas fatias generosas de grandes empresas a actuar em Portugal: a Zon e o BPI. E fontes do mercado asseguram que este apetite está longe de saciado.

Com o reforço das participações no banco liderado por Fernando Ulrich e na dona da TV Cabo, eleva-se para 8,2% o peso destes investidores no valor total das 20 maiores empresas cotadas na bolsa portuguesa, isto apesar de só estarem no capital de apenas seis delas – mesmo que indirectamente, como na Galp.

À capitalização de ontem, as participações accionistas detidas pelos Estados de Angola e China em Portugal estavam avaliados em mais de 3,5 mil milhões de euros, o equivalente a cerca de 8% do total do valor de mercado das 20 maiores cotadas nacionais – que ronda os 43 mil milhões de euros. Mas estes 8% escondem participações superiores em cada uma das seis empresas [Zon, BPI, BCP, Galp, EDP e REN] em que este tipo de investidores de capital público estão presentes.

Na Galp, a maior petrolífera portuguesa, com uma forte posição no mercado retalhista e grossista de distribuição de combustíveis, a presença dos angolanos ainda é conseguida de forma indirecta. A Sonangol e Isabel dos Santos são donos de 45% da Amorim Energia que, por seu turno, é hoje detentora de 33,34% do capital da Galp – o que lhes dá o equivalente a 16% das acções da empresa por via indirecta. Mas a Amorim está em vias de reforçar a sua posição na petrolífera, fruto de um recente acordo com a italiana Eni. E este reforço da Amorim, levará a um reforço do peso dos angolanos na petrolífera portuguesa. O entendimento entre a Amorim Energia e a Eni, fechado em Março, estabeleceu que a empresa portuguesa comprará mais 5% da Galp até Novembro. Posteriormente, a Amorim Energia pode vir a comprar outros 5% da empresa à Eni, ficando ainda com direito sobre uma nova fatia de 5,34% da Galp ainda em mãos italianas. Tudo somado, a Amorim poderá vir a ser dona de quase 49% da Galp, o que dá aos accionistas angolanos da Amorim cerca de 22% do capital da Galp.

A relação entre Angola e Amorim, e a sua extensão a Portugal, chega também através do Banco Português de Negócios, agora comprado pelo BIC Portugal, banco lançado em Angola numa parceria entre o empresário português e Isabel dos Santos. Esta participação, contudo, não estando cotada em bolsa não entrou nas contas deste artigo – à imagem da presença angolana na comunicação social portuguesa, cujo peso ainda está por esclarecer na totalidade.

Mas além do BPN, que agora será totalmente transformado em BIC, os interesses angolanos na banca portuguesa estão também assegurados através dos cerca de 15% que a Sonangol detém no BCP e através dos 19,4% que Isabel dos Santos detém no BPI, depois da aquisição desta semana pela Santoro Finance de 9,436% deste banco ao La Caixa, participação que Isabel dos Santos juntou aos 9,69% adquiridos no final de 2008 ao BCP.

Depois da banca e dos combustíveis, há ainda que referir os fortes laços angolanos com as telecomunicações em Portugal. Se por um lado Isabel dos Santos se tornou esta semana na maior accionista da dona da TV Cabo, por outro não é de somenos referir os fortes laços que unem a empresária com a PT na operadora angolana Unitel, uma das maiores contribuintes para os lucros da empresa de Zeinal Bava – à imagem do que acontece com o BPI, cujos lucros também estão bastante dependentes das operações em Angola. Já no caso do BCP, o contributo da operação angolana é menos significativo para a construção dos lucros.

Depois da Galp, comunicações e da banca, foi a energia o último sector estratégico a ser tomado por capitais estatais estrangeiros. A EDP e a REN foram vendidas por Passos Coelho e Vítor Gaspar ao Estado chinês – às empresas Three Gorges e China Grid –, como forma de baixar o défice com receitas extraordinárias.

in: Jornal i, 10 Maio 2012