Ritmo de destruição de emprego sobe 45% em quatro meses

É preciso ir até ao Boletim da Primavera de Março passado para encontrar os valores e conseguir fazer a comparação: “Projecta-se uma redução do emprego de 3,3% em 2013”, dizia então o Banco de Portugal, e também que “em 2014 se antecipa uma recuperação gradual do emprego no sector privado, no contexto das actuais projecções.” Agora, no Boletim de Verão da mesma instituição, ontem publicado, o cenário ficou bastante mais negro: “A projecção antecipa uma redução do emprego de 4,8% em 2013, seguida de uma queda de 1,3% em 2014.” Uma mudanças drástica em apenas quatro meses.

Cruzando estes ritmos de destruição de emprego previstos pelo Banco de Portugal com o total de empregos existentes no país no final de 2012 – cerca de 4,5 milhões –, constata-se que o BdP em quatro meses passou a contemplar a destruição de mais 134 mil empregos em Portugal em 2013 e 2014 do que os contemplados em Março passado. A quebra de 3,3% anunciada no Boletim da Primavera correspondia a cerca de 150 mil postos de trabalho destruídos ao longo de 2013. Com a revisão de ontem, para 4,8%, na destruição de emprego, o valor salta para perto de 220 mil postos de trabalho desaparecidos este ano. Ao longo deste ano continua a ser o sector privado a pagar a factura que a crise está a passar ao emprego, pois, diz o BdP, se o emprego global no país cai 4,8%, no sector privado a redução é “de 5,1% em 2013”.

Quanto a 2014, as previsões do banco central passaram de “uma recuperação gradual” para uma quebra total de 1,4% de Março para Julho, que é como quem diz que afinal em 2014 vão mais 62 mil postos de trabalho à vida.

DESIGUALDADES Numa conclusão que pecará por tardia, o Banco de Portugal dedica uma caixa do seu boletim de Verão ao problema da enorme disparidade salarial que se criou em Portugal, culpando a mesma da falta de consenso no país em relação às reformas em curso. “As experiências europeias demonstram que é mais simples a obtenção de consensos sobre reformas institucionais quando a repartição do rendimento é menos desigual”, diz o BdP, salientando “a necessidade de reduzir a desigualdade”, já reclamada por vários sectores da sociedade portuguesa há anos. “A redução da desigualdade deve estar associada à mobilidade social e estas duas dinâmicas virtuosas da sociedade dependem do desenvolvimento de um sistema educativo mais inclusivo”, aponta ainda o BdP.

in: Jornal i, 17 Julho 2013