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Educar a poupar, poupar para educar

Com diversão, dando o exemplo, sem conceitos complicados, sem comparações ou obsessões, com prémios, objectivos e uma semanada ou mesada. É através destes pilares que é possível iniciar os mais novos na educação financeira, onde além de poupar é preciso também aprender a gerir.

In: Revista Montepio nº32, 2019

É com o exemplo dos pais que as crianças aprendem pois são estes que, durante anos, surgem como a maior e mais confiável fonte de informação aos olhos dos filhos. Que aprendem tanto com o que ouvem como pelo que vêem. É assim que nascem e se perpetuam hábitos e quotidianos. Os avós passaram aos pais que passam aos filhos que passarão aos netos. E a cada geração só há que actualizar os ensinamentos. Entre estes, a educação financeira.

Preparar e habituar o seu filho a poupar desde cedo ajudá-lo-á a melhor enfrentar a vida no futuro, sendo possível fazer desta educação um jogo e não mais do que isso, deixando claro que a poupança serve para melhor desfrutarmos a vida e que o dinheiro não é uma obsessão ou um objectivo por si só. Através de mealheiros, metas de curto e/ou longo-prazo, prémios e sem recorrer a conceitos complicados ou comparações é possível ensinar os seus filhos a gerir e a poupar dinheiro.

            Semanada ou mesada e um mealheiro

Para que tal aconteça, primeiro é preciso que os seus filhos tenham dinheiro. Seja semanada ou mesada, o importante é dar-lhes um fluxo estável como forma de os preparar a gerir e poupar o que vão recebendo. Não precisa de ser muito, precisa de ser algum. O suficiente para que pequenos brinquedos ou jogos, por exemplo, fiquem à distância de algumas semanas, criando o incentivo para que parte do dinheiro não seja logo gasto.

Apesar de poder usar exemplos da economia doméstica para transmitir a importância e a vantagem de uma gestão equilibrada, adapte sempre o discurso à idade da criança e não o oposto. Mas não fuja da conversa sobre dinheiro: explique de onde ele chega. Os pais trabalham para todos os meses receberem a sua própria “mesada” e, nesta lógica, também pode associar o pagamento da semanada ou mesada à realização de pequenas tarefas domésticas como arrumar os brinquedos ou ajudar a pôr e a levantar a mesa.

            Dê o exemplo, autonomia e conselhos

Ao explicar que também poupa para concretizar objectivos e de como todos os meses recebe um ordenado, está já a transmitir o exemplo para os seus filhos de como uma gestão responsável das finanças são recompensadoras. Mas o exemplo não deve ficar por aí: compre um mealheiro também para si e acompanhe os seus filhos no esforço de encher um mealheiro, realçando com esse gesto a importância do ato.

Mas os exemplos devem chegar de vários hábitos. Deve explicar porque razão nem sempre se compra tudo o que se quer, e, tratando-se de crianças já mais velhas, porque não levá-los às compras para que vão percebendo os diferentes preços e aprendendo porque se escolhe produto “a” em vez do “b”.

Garantir que a poupança é feita por escolha própria é uma das lições mais importantes a passar. Não force a poupança, dê-lhes autonomia. Errar faz parte da educação e gradualmente, se perceber que nunca chega ao objectivo, a ideia começará a ganhar raízes. E lembre-se: se o seu filho não chegou ao objectivo que definiu, não lhe ofereça esse objetivo, porque estará a recompensar a falha. Mantenha-se vigilante, mas não imponha nem controle em demasiado. Se a gestão tiver a ser bem feita sublinhe-o, se estiver a ser mal feita explique apenas porquê e que opção teria sido mais benéfica.

            Conte o dinheiro e apoie o esforço. Mas com que idade começar?

Ainda que dependendo do objectivo definido para a poupança, uma boa forma de manter a motivação passa por de vez em quando juntarem-se para contar o que já foi amealhado até ao momento. Caso tenha um mealheiro transparente, é mais fácil acompanhar a evolução da poupança, mas ter a percepção exacta de quanto já se tem ajudará à motivação.

Admita também definir etapas: se o objectivo da poupança for a compra de um brinquedo caro, porque não desafiá-lo a chegar a metade do valor? Se lá chegar num certo período temporal, os pais entram com o restante. Já se os objetivos forem muitos, pode sempre oferecer-lhe mais do que um mealheiro para que caiba à criança decidir qual quer ir privilegiando.

Sendo certo que cada criança tem o seu próprio ritmo de maturidade, há balizas não estanques que podem servir de guia. Até aos cinco anos, por exemplo, dificilmente haverá percepção do que é o dinheiro e, logo, não fará sentido dar mesada ou semanada. Será então por volta dos cinco anos que poderá começar a dar passos nesse sentido, introduzindo a semana.

A introdução à gestão familiar pode ser tópico a partir dos oito/dez anos de idade, depois de números e contas já fazerem parte do quotidiano escolar, e os desejos e  gostos particulares para roupa ou outro tipo de bens já se fazerem sentir. Se tem de comprar uns ténis ou uma mochila, defina um teto máximo e deixe a criança escolher: se quiser outros terá que poupar o valor acima do teto ou, em alternativa, aceitar o teto.

A partir dos 12/14 anos já poderá pensar em tornar a semanada numa mesada, forma de introduzir os jovens ao “ritmo” de gestão orçamental mais comum da idade adulta, aproveitando para, a partir desse momento, envolvê-los mais na gestão do orçamento familiar, das férias, das contas da casa, e também, porque não, a partir de certa idade ou maturidade, dando-lhe voz e voto nas decisões.

Dicas rápidas:

  • Dê uma semanada ou mesada, já que só assim é possível ter dinheiro para gerir;
  • Ofereça um mealheiro e explique o seu fim: tudo o que não gastar da semanada pode ser ali guardado para, com tempo, comprar algo que o dinheiro de uma só semanada não chega;
  • Defina objectivos ou prémios: se o seu filho quiser um brinquedo ou jogo caro, desafie-o a chegar a metade do valor num determinado período e, se conseguir, ofereça a outra metade;
  • Dê o exemplo: não seja consumista, não desperdice, mostre-lhe que também poupa e diga-lhe que não a luxos;
  • Adapte o discurso e não complique explicações nem faça do dinheiro uma obsessão;
  • Não force a poupança, dê autonomia: mais vale poupar pouco por vontade do que poupar tudo à força;

—           

               Caixa

            Poupar para educar

Sendo difícil projectar uma situação financeira a 10 ou 20 anos, a melhor forma de preparar o bolso para dar ao seu filho todas as oportunidades académicas que ele vier a desejar é começar a preparar uma poupança exclusiva para esse fim desde cedo.

Tendo em conta que falamos de um objetivo a médio e longo prazo, a estratégia recomendada passa por um ritmo de poupança mensal, de modo a ser acomodada no orçamento do mês, sem deixar o dinheiro parado numa conta à ordem. Encontrar um produto financeiro de médio ou longo prazo que retribua acima da inflação será a prioridade, mesmo que vá começar a poupança do zero.

Apesar do ideal ser começar a poupar quanto antes, sublinhe-se que nunca é tarde para começar a amealhar para a educação. O objectivo da poupança não passa necessariamente por ter todo o dinheiro para uma licenciatura antes de começar, mas sobretudo ter algum capital amealhado de modo a poder ir gerindo e acomodando as despesas extra com a educação quando forem surgindo.

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